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Quando o silêncio grita


Cena da peça "O filho". Créditos da foto: Ronaldo Gutierrez
Cena da peça "O filho". Créditos da foto: Ronaldo Gutierrez

O perfil da plateia quando chegamos ao teatro já me chamou a atenção. Muitos pais, por volta dos 40, 50 anos, acompanhado dos filhos, jovens, ainda na adolescência, ou um pouco depois disso. Enquanto eu tomava um café no átrio com minha mãe, fiquei observando e refletindo: Qual o interesse dos jovens na peça? Estavam ali por obrigação? Por convite? Ou porque, ao lerem a sinopse, sentiram-se representados? No palco, "O Filho" nos apresentava Nicolas — um adolescente que sorri para o mundo enquanto se despedaça por dentro. A sirene tocou e as luzes apagaram. O teatro entrou naquele silêncio de espera.


A peça de Florian Zeller não fala sobre um adolescente em crise. Fala sobre uma família que, aos poucos, foi esquecendo de ouvir, foi deixando de participar. Trocou a presença por presentes e o passeio de domingo, pelos jogos, celulares e computadores.


Uma cena em especial me chama atenção. Os pais já estão separados, Nicolas já está com problemas, Ana pede ajuda e Pedro vai conversar com o filho, depois de tempos sem estar presente e a primeira coisa que ele diz, quando o filho relata que não está bem, é: - Filho, me fala, eu estou aqui. - Sim, ele estava, mas tarde demais. Nicolas não conseguia expressar, mas na verdade, o que ele queria e precisava dizer é que, por muito tempo, o pai não esteve. Agora, ele queria o pai, mas já não sabia mais como ele poderia ajudá-lo com sua dor. Porque ausência, silêncios e partidas, não se curam com comprimidos.


A depressão na adolescência raramente nasce do nada. Ela tem endereço, tem história, tem data de início — só que ninguém marcou no calendário. Começa muito antes do diagnóstico, muito antes da primeira crise visível. Começa quando a criança aprende, aos poucos, que o que ela sente não cabe na rotina dos adultos, não tem importância. Que suas perguntas interrompem, atrapalham, são inconveniente. Que sua tristeza é exagero. Que seu medo é frescura.Que seu comportamento arredio, irresponsável ou retraído é só uma fase. Diante dessa postura dos pais e adultos ao redor, a criança aprende a se calar.


Não de uma vez. Silêncio assim se constrói em camadas — numa resposta curta demais, num "agora não", num olhar distraído durante uma confidência importante. A criança guarda. Guarda mais. Guarda tanto que um dia não cabe mais nada, e o que transborda assusta a todos ao redor, como se tivesse surgido do nada, e o pior, sem motivo.


"O Filho" nos obriga a sentar com esse desconforto. Nos coloca diante do espelho e pergunta, sem gentileza: onde estão os pais, quando os filhos crescem? Quando eles são autônomos o suficiente para organizarem os seus estudos, as suas obrigações, vão sozinhos para os seus compromissos. Como ficamos presentes, quando aparentemente somos indesejados?


Quando um adolescente adoece, é porque algo ou alguém, em algum momento, adoeceu antes. E aqui eu não quero falar de culpa, mas sim de responsabilidade. O que a peça mostra é que todo mundo tem o direito de ser feliz, mesmo após o término de um relacionamento. Só que para essa felicidade realmente aconteça, o respeito precisa vir primeiro. Respeito pelo sentimento de quem ficou, pela decisão de quem partiu e, principalmente, pelas emoções da criança que fica no lugar central de toda a disputa.


A saúde mental dos nossos filhos começa na qualidade da nossa presença, na escuta, na participação efetiva, na empatia por suas dores e no direcionamento correto e afetuoso de suas dúvidas. Na nossa disposição de aguentar o desconforto das perguntas difíceis. Na nossa capacidade de dizer "pode falar, eu estou aqui" — e realmente estar, mesmo que em pedaços.


Quando as luzes se acenderam novamente, havia soluços e suspiros por todo o teatro. Uma montagem teatral, atuações incríveis servindo como espelho para uma sociedade fragilizada, constantemente bombardeada pelo excesso de conectividade tecnológica e escassez de presença humana nas relações.


Às vezes, precisamos nos afastar, sair do nosso ambiente, para escutarmos o silêncio que grita dentro das nossas próprias casas.


 
 
 

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